“Deus não existe e nós somos seus profetas.”
Cormac McCarthy
A Estrada
Anunciação
Era um caminho tão familiar para Maria que ela seria capaz de ir e voltar de olhos fechados. A trilha que levava ao poço serpenteava aos pés das colinas de Nazaré. E naquela hora do dia, com o sol começando a se pôr, elas estavam pintadas de cobre e bronze, enquanto o céu deslizava de um raro azul cerúleo dos últimos dias de inverno para o dourado que sussurrava indícios da primavera vindoura. De um horizonte a outro não havia uma única nuvem para ser vista. Os braços de Maria doíam, os baldes de madeira eram velhos e pesados, sua respiração estava pesada; as sandálias em seus pés tinham as solas finas, gastas pelo uso naquela mesma trilha e nos vários outros caminhos que entravam e saíam do vilarejo, as pequenas pedras pontiagudas da trilha mordiam seus pés como se fossem insetos raivosos. Mas nada disso a incomodava, afinal aquela era a sua época favorita, cheia de cores vivas, brilhantes, sombras alongadas e o ar estava o tempo inteiro cheio de promessas.
Como a promessa do seu casamento, que se avizinhava. O pensamento, como sempre, inevitável, fazia com com que um arrepio corresse por sua espinha, de cima a baixo.
Em poucos dias a cerimônia seria realizada, assim que o rabino voltasse de uma breve viagem a um vilarejo do outro lado das colinas e o período de uma semana que a Lei demanda que os noivos fiquem separados seja cumprido. Em sua carpintaria, José preparava os postes que sustentariam o tecido do chuppah, toldo sob o qual seria realizado o casamento. A recepção de amigos e parentes já estava organizada, os escriturários da sinagoga já tinham os documentos todos prontos para serem assinados. Tudo estava encaminhado, Maria não precisava se preocupar com nada, podendo dedicar-se apenas a tarefa de purificar-se e aguardar o dia da união com seu futuro marido e pai de seus filhos.
E também às tarefas domésticas — como buscar água no poço para as necessidades da noite — estas que não aguardam ninguém e não respeitam as tradições.
Outro calafrio.
A parte mais difícil do caminho era a última, quando a trilha faz uma curva acentuada para a esquerda e se torna uma subida ingrime que levava ao platô entre duas colinas onde o poço ficava. Haviam outros poços em Nazaré que demandavam menos trabalho, bem verdade, mas era de conhecimento geral de que a água daquele poço em particular tinha qualidades que proviam as pessoas com força e saúde. Era um esforço justificado, então. E Maria tinha prazer em seguir a trilha duas vezes por dia, uma pela manha e outra pela tarde. As colinas sempre ofereciam cenários que a enchiam de paz e serenidade. Continuaria com aquela rotina, quase um ritual, também depois de casada; e esperava que pudesse ensinar a beleza disso a uma filha que levasse a tradição adiante.
Maria deixou os baldes caírem ao lado do poço assim que o alcançou. Suspirou de alívio ao se sentar na borda feita de pedras cuidadosamente entalhadas e começar a massagear os braços. A dor era um incomodo, certamente, mas Maria gostava dela de certa forma, de como isso fazia sentir-se viva e com um lugar no mundo. E a vista ali do alto valia a pena, além da sensação de estar em um lugar distante da sua realidade, um mundo à parte cheio de detalhes que podem ser recapturados todas às vezes.
Como a caverna que se abria como uma boca na rocha diretamente a frente do poço. Os sábios da região debatiam constantemente a cerca de sua natureza, se era uma formação natural causada pela erosão natural da água, do vento e do tempo ou se fora feita pelas mãos dos homens, dado as seus contornos lisos e regulares. Era um lugar que causava fascínio e medo em medidas iguais. Há gerações as crianças de Nazaré a exploravam na expectativa de encontrar algo extraordinário, mesmo que ninguém antes delas tenham encontrado qualquer coisa fora do banal.
A única coisa que havia dentro da caverna era uma piscina rasa que se formava a partir de uma rachadura na pedra por onde escorria um filete de água. Às vezes o sol entrava e se espalhava sobre aquele espelho de águas imóveis causando reflexos que deixavam o interior normalmente escuro da caverna cheio de figuras geométricas coloridas. Mas era um fenômeno raro e Maria teve a sorte de presenciá-lo apenas uma vez, quando era criança. Mas fora o suficiente para encher a menina de encanto e preservar a imagem em sua mente pelo resto da vida.
Essa água era limpa e transparente, mas ninguém bebia dela por causa da fama de deixar as pessoas loucas. Todas as famílias do vilarejo tinham histórias de parentes que se arriscaram a beber e acabaram tomadas por alguma força maligna que os faziam dizer coisas absurdas e agir como alguém possuído. Maria não gostava nem de olhar na direção daquele lugar.
Ela suspirou mais uma vez e se colocou de pé. Tirou a tampa de cima do poço e começou a girar a manivela que levava o balde preso a uma corda até a água. Enquanto fazia isso se pegou pensando no que faria no dia seguinte. Não seria um dia particularmente cheio de tarefas, e por isso talvez fosse possível tirar algum tempo para fazer uma visita a sua prima Isabel, que finalmente estava grávida depois de muitos anos esperando por um filho. Era um momento de muita alegria para toda a família e Maria queria parabenizá-la em pessoa. Até porque Isabel não poderia comparecer ao casamento, por causa da fragilidade de sua gravidez tardia.
Seria uma caminhada considerável; tanto para ir quanto para voltar. Acumulando mais estafa a um dia que já seria cansativo, mesmo que menos movimentado.
Tão cansativo que quase a faria esquecer que o seu casamento estava chegando.
Mas não seria o suficiente. Ainda não. Talvez no dia seguinte, ou no próximo, ela conseguisse afastar o pensamento. Mesmo se fosse por apenas um dia, um único dia, a véspera, Maria se sentiria satisfeita por alcançar aquele abençoado momento de paz espiritual. E, com alguma sorte, afastar também a culpa que apertava seu coração pelo desejo de esvaziar sua mente daquele pensamento. A única coisa que poderia fazer era continuar tentando. O casamento era uma realidade da qual Maria não tinha como fugir, então, ao menos, faria o esforço de fugir do medo e da angústia pelo abismo desconhecido que ela enfrentaria. A essa altura de sua vida, por mais curta que fosse, ela já sentia o ato de mentir para si mesma, de escapar da realidade, de ignorar os fatos como se eles não estivessem lá, como uma segunda natureza. Uma segunda pele. Não era – e jamais seria – algo novo.
E ela sabia que não seria diferente depois de casada.
José era um bom homem; sério, dedicado, respeitado na comunidade. Maria estava certa de que ele daria uma vida digna e respeitosa para ela e para a família que construiriam juntos. Por que o medo então? A angústia? Esse sentimento que esmagava seu peito e a proibia de respirar? Ela se esforçava para encontrar as respostas para essas perguntas, mas o sucesso a escapa da mesma forma que a areia do deserto escorre pelos dedos.
Considerou conversar com o rabino sobre isso, abrir seu coração, buscar respostas na sabedoria da Lei. Mas decidiu que não seria uma boa ideia, não tão perto do casamento. Poderia levar a outras perguntas. As pessoas falam. Os seus pais não mereceriam passar por uma humilhação assim. Então Maria decidiu vestir a máscara de que estava tudo bem que o casamento seria o grande momento de sua vida.
Máscaras. Era difícil não enxergar de tal maneira. A existência não passando de uma farsa, uma dança, onde todos vestem as máscaras que permitem sobreviver sem serem totalmente quebrados. Esses pensamentos deixavam Maria triste e com um terrível gosto de fel na boca.
Ela saiu de seus devaneios quando sentiu os pés ficaram molhados de repente.
Olhou para baixo e viu que ambos os baldes estavam transbordando. Ela resmungou, irritada consigo mesma, e passou a tirar o excesso de água com as mãos colocadas em forma de concha e a devolvendo para dentro do poço, senão não conseguiria carregá-los de volta sem derramar tudo pelo caminho. Desperdiçar água era um pecado que ela jamais se permitiria cometer.
Secou as mãos em suas roupas, pegou os baldes pelas alças e rapidamente tomou o rumo de volta, subitamente preocupada com a possibilidade de escurecer antes que chegasse em casa. As trilhas entre as colinas não eram seguras durante a noite, animais selvagens estavam sempre a espreita e em busca de caça, além de homens de más intenções e bandidos que também espreitavam em busca de presas. Então era melhor se apressar.
Mas antes que ela pudesse alcançar a trilha que levava para fora do platô uma voz chamou seu nome.
Maria parou de repente, entre um passo e outro, quase caindo e derrubando os baldes. Era uma voz, ela tinha certeza do que tinha ouvido, uma voz clara e limpa e que poderia ser tanto de um homem quanto de uma mulher, o que por alguma razão a deixou ainda mais aterrorizada.
“Maria…” a voz a chamou novamente, ao mesmo tempo um pedido gentil e uma ordem que não deixava espaço para questionamentos. Ou algo que não era nada disso.
Cuidadosamente ela colocou os baldes no chão e virou-se para a direção de onde a voz vinha. O sol lançava uma longa coluna alaranjada que iluminava o poço e formava um caminho dele até a entrada da caverna. A noite começava a engolir as colinas e escarpas ao redor, lagos de escuridão que margeavam uma passagem que parecia recortada no meio de um tecido tingido de preto. Maria compreendia de onde a voz vinha, onde deveria ir; era tão claro quanto aquela luz. Mas suas pernas estavam pesadas e duras como blocos de gelo e seu coração, apesar de tudo isso, batia muito devagar. Não havia ninguém ali, ninguém que ela pudesse ver, ninguém que fosse uma presença natural em meio aquela cena irreal que poderia ter saído de uma das histórias que os sábios e anciões contavam. Antes de ouvir um novo chamado Maria o sentiu — e isso quebrou o gelo de suas pernas, levando-a a seguir aquele caminho luminoso e assustador.
Cada passo levava uma eternidade.
A domo do firmamento girava furioso, as estrelas correndo pelo céu tão velozes que se tornavam apenas linhas rabiscadas por uma criança, as estações se sucedendo no espaço de uma respiração. Frio mordaz e calor sufocante. A ira da tempestade, a serenidade da bonança. Um universo em cacofonia onde nada era eterno e o caos o único deus. Menos o caminho. O caminho era imutável, inabalável, a âncora que centrava aquela existência terrível. A força que puxava Maria em direção a quem quer que fosse que a chamava.
Eventualmente ela chegou ao final do caminho — depois de quantas eras, impossível saber — e se viu diante da entrada da caverna. Parecia maior, muito maior, como a boca de uma besta de calcário prestes a devorar o mundo e o engolir para Geena. A luz laranja lentamente havia se tornado mais vermelha durante a jornada de Maria e agora deslizava para dentro da boca da besta, pintando as bordas da piscina natural com cores que prometiam tormento e loucura.
“Salve Maria,” disse a voz que era masculina e feminina ao mesmo tempo, vinda de todos os lugares e de lugar nenhum, suave, provocativa, com um tom que Maria não conseguia designar ou como afetuoso ou jocoso. “Não tenha medo, o Senhor está convosco."
“Quem… quem é você? O que quer comigo?” Maria perguntou após um longo momento de hesitação, paralisada pelo medo que tomava conta de seu corpo. “Estou morta? Você veio buscar minha alma? É isso?”
A voz respondeu com uma risada que reverberou através das rochas da caverna, uma vibração que chegou aos ossos de Maria, fazendo-a tremer e seus dentes rangerem de pavor. Subitamente a luz vermelha se tornou branca, mais pura e mais cegante do que qualquer luz que Maria já tenha visto, iluminando o interior da caverna e a piscina, causando um caleidoscópio de cores do arco-íris. Os ombros de Maria caíram, o medo deixando seu corpo e sendo substituído pela tristeza e a aceitação de que estava mesmo morta. Então era isso, o fim. Uma memória querida para acalmar o coração e então a passagem para o Seol e então o que viria depois.
Mais uma vez a voz riu.
“Maria, Maria… você não está morta. Muito pelo contrário: sua vida começa de verdade a partir de hoje.”
Ela caiu de joelhos no chão pedregoso. “Então o que… o que…”
Dentro da caverna a água da piscina começou a tremular, quebrando o seu eterno estado de espelho. Alguma coisa começou a se erguer de dentro da água. Algo grande, maior do que um homem. Impossível, Maria pensou confusa e chocada, a piscina era muito rasa para algo assim ser possível. Mas estava acontecendo diante de sues olhos.
Aos poucos ficava claro que era algum tipo de ser feito de fogo e luz, sem uma forma permanente, mas com asas imensas que enchiam completamente a caverna e uma centena de olhos que miravam Maria em conjunto, fazendo com que ela se sentisse minúscula e indefesa diante daquela visão sobrenatural.
“Não temas, Maria. Eu sou apenas o mensageiro das boas novas do Senhor. O Arcanjo Gabriel.”
Ela respirou para dizer algo, mas antes que conseguisse a criatura foi coberta por uma luz ainda mais branca e ainda mais cegante. Maria gritou e enterrou seu rosto entre os braços, temendo que nunca mais conseguiria enxergar.
Após alguns instantes a periferia de sua visão notou que a luz havia diminuído. Ela levantou a cabeça e olhou para o interior da caverna. No lugar do imenso ser de luz e fogo havia um homem, alto e de ombros largos, braços musculosos, pele morena escura e cabelos pretos encaracolados. Nas costas se postavam um par de asas brancas tão grandes quanto ele mesmo.
“Talvez assim você se sinta mais confortável, abençoada Maria,” ele disse, mostrando dentes imaculados em um sorriso largo, agora com uma voz masculina profunda e musical, mas que ainda contava com aquele ligeiro tom cujo significado ainda a eludia. Ele estendeu um braço, a mão para baixo e a palma para frente. “Venha até mim.”
Não era uma ordem. Não era um pedido. Era algo além disso, além dessa distinção mundana.
Maria levantou-se e entrou na caverna, atravessando as tapeçarias de luz colorida que emanavam da piscina, com passadas tímidas, porém firmes, e logo se viu diante do homem, desse mensageiro de Deus. Ele era um gigante em comparação a ela. Um pilar sólido e reverencial de pele, músculo e asas. Ela caiu de joelhos mais uma vez, de cabeça baixa e mãos juntas.
“Sou sua serva,” ela anunciou, em partes iguais de devoção e terror.
“Olhe para mim, criança.”
Ela olhou. E apenas naquele momento notou que o mensageiro estava nu.
Naquela posição, ajoelhada, Maria estava com os olhos na mesma altura da genitália do homem. Era a primeira vez na vida em que ela via a nudez de um homem e uma sensação vertiginosa de vergonha e remorso a tomou pois sempre havia acreditado que aquilo aconteceria apenas com o seu futuro marido. Sua visão ficou fixa na virilidade do mensageiro por um breve instante, que foi suficiente e longo demais, e logo a mirou para os seu olhar azulado.
“A mim você não deve nada, Maria, como disse não passo de um relés mensageiro, o portador da boa nova que o Senhor destinou a você, entre todas as mulheres da criação.”
“Mas por que eu? O que faz de mim especial para ser merecedora de tamanha benção?” Ela ficou surpresa consigo mesma, com a firmeza com que falou e a forma como ignorou a presença massiva da genitália a um palmo de distancia do seu rosto.
“Os desígnios do Altíssimo são misteriosos e suas motivações sempre serão privadas apenas a Ele.”
“E o que Ele demanda de mim?”
“Você receberá a semente do Espírito Santo e com ela conceberá e trará ao mundo o filho Dele.”
“O filho de Deus,” Maria sussurrou, incrédula.
“O filho de Deus,” ecoou o Arcanjo. “O filho do Altíssimo, herdeiro do Trono de Davi, que reinará eternamente sobre a descendência de Jacó em um reino que não conhecerá fim. O Messias prometido pelos profetas. As palavras de Isaías e Moisés se tornarão realidade, finalmente.” Ele sorriu candidamente, colocando uma mão carinhosa no rosto de Maria, seus dedos ligeiramente ásperos afagando sua bochecha e enviando arrepios por toda sua pele e eriçando seus pelos. “Você será a mãe do homem que mudará o mundo para sempre, Maria. Encha-se de alegria!”
“Eu estou alegre, meu coração canta em honra ao Senhor, mas…”
“Mas?”
“Sinto-me tão confusa! Com temor! Como é possível tal coisa?”
“Com Ele tudo é possível, doce criança. Não há com o que se preocupar, apenas entregue seu coração sem medo e Ele proverá as respostas que sua alma tanto anseia.”
“Um filho… um filho que não será do meu marido. Não poderei me casar se conhecer outro homem, mesmo que esse homem seja Ele. Deverei fazer tamanho sacrifício?”
O sorriso do Arcanjo alargou-se, deixando-o com um ar felino de deleite. O toque de seus dedos ficou mais forte na pele de Maria. “Oh, é isso que a aflige então? A glória do Altíssimo significa tão mais que um mero casamento!” Outra vez ele riu aquele riso enervante e indecifrável. “Maria, Maria, eu me repito vez após vez: não temas. Sua vida mudará, verdadeiramente, mas nenhum sacrifício sera demandado de você. Apenas acredite, apenas confie. A verdade se revelará no tempo que Ele decidir ser o adequado.”
“Eu não sei o que responder…”
“Não há o que responder, o que decidir. Tudo o que contei a você hoje, Maria, já é um fato consumado na grandeza do Senhor. Agora retorne ao seu lar e prepare-se.”
“Preparar para o que?”
“Tudo ao seu tempo.”
Um estalo agudo. Um clarão. O som de vento de tormenta.
Maria piscou e estava de volta junto aos baldes. Ainda era dia, a luz do sol iluminava o topo das colinas e o céu continuava pintado de dourado perto do horizonte. No ar se ouvia apenas os sussurros da brisa do entardecer e, distante e sutil, o pingar da água que caía da parede da caverna para dentro da piscina. Nada havia mudado, tempo algum havia passado.
Tudo o que ela vira e sentira havia sido apenas um sonho? Um delírio?
Ela levantou os baldes e tomou o caminho de casa.
Para se preparar.
1
A lembrança mais clara do dia em que Hugo contou a mentira que mudaria sua vida para sempre era que o mel estava com um agradável aroma de café. Sua coloração também lembrava isso, um tom marrom dourado, como os cafés de torra média de alta qualidade. Ainda não havia provado, pois seria rude de sua parte começar a comer o aperitivo de pequenas torradas antes que a pessoa a quem aguardava chegasse, mas suspeitava que nele também houvesse notas de café, toques cítricos e doçura caramelada.
Ele ficou intrigado com aquilo, achando o fato fascinante, e passou o tempo em que esperava na mesa do bistrô buscando por uma explicação para aquilo. Talvez o apiário onde o mel foi produzido ficasse perto de um cafezal, ou mesmo dentro de um, as abelhas coletando seu pólen nos cafeeiros em flor. Quem sabe o apicultor tenha habilidades alquímicas que usou na elaboração de um produto diferenciado. Poderia ser também uma espécie exótica de abelha que produz esse tipo específico de mel, em outro país, outro continente. Ou ele estava apenas imaginando coisas e o mel era perfeitamente banal.
Hugo sabia alguma coisa sobre abelhas e produção de mel. Não muito, mas sabia. Nos matagais mirrados da estância, entre os butiazeiros enormes e solenes, o velho Jeremias cuidava de dezenas de colmeias dentro de caixas e a partir delas fazia o mel que todos comiam, dos patrões aos funcionários. Quando criança, Hugo o acompanhou algumas vezes na colheita, vestindo roupas compridas, um véu no rosto e galochas nos pés. Jeremias, por outro lado, usava apenas suas roupas de sempre, camisas de mangas curtas e bermuda surrada. “Eu não tenho medo,por que teria? As abelhas me conhecem, somos amigos desde sempre, desde que eu tinha a tua idade, Huguinho,” ele dizia, rindo com seu palheiro fumegando nos dedos, o chapéu no alto da cabeça. “E você nunca precisa se proteger quando for lidar com amigos. A não ser que eles não sejam amigos de verdade.”
Tanto tempo depois e essas memórias ainda evocavam o cheiro acre de fumaça, a do palheiro e da que Jeremias usava para espantar as abelhas. O zumbido contante. O roçar da palha seca. O canto dos jacus.
Saudoso Jeremias. Estava morto há anos.
“Hugo!” Soou uma voz que o trouxe de volta de seus devaneios. “Espero que não o tenha feito esperar por muito tempo.”
“De maneira alguma, Pedro,” Hugo fez um gesto para que o recém-chegado se sentasse. Pedro tinha mais de sessenta anos, seu cabelo era ralo e quase transparente, mas sua forma era invejável para alguém de sua idade. Não era alto, mas seu corpo sólido e definido parecia tão firme como havia sido muitos anos antes, quando Hugo o conheceu. “Estou aqui há poucos minutos,” era mentira — mas não a mentira que mudaria sua vida — porque esperou por mais de uma hora. “E em um dia tão agradável a espera não foi nada menos que prazerosa.”
“Ótimo, ótimo,” Pedro se acomodou, deixando uma maleta na calçada, ao lado da mesa. Ele abriu um botão de seu paletó, revelando mais de uma camisa azul claro elegante, de corte impecável, que cobria as linhas do seu torso como uma facilidade quase casual. O relógio em seu pulso, um modelo clássico e refinado mas que não demonstrava opulência, refletia a luz branda do sol. “Antes de tratarmos de negócios, gostaria de comer alguma coisa? Tomar um café?”
“Por mim tudo bem.”
Pediram café e croissant com geleia de amora. Enquanto isso comeram as torradas com mel e, para seu deleite, Hugo sentiu a doçura e acidez que havia previsto. O pedido chegou logo em seguida e eles comeram conversando trivialidades que Hugo não prestava muita atenção e respondia com comentários vagos, em sua mente a mentira rondando e rondando, cada vez maior na antecipação de seu iminente nascimento.
Por fim terminaram. “Pois então,” Pedro disse por trás do guardanapo com que limpava sua boca, “eu já imagino o que você tem para me dizer.”
Hugo ergueu as sobrancelhas, uma faísca de apreensão em seu estômago. As palavras de Pedro poderiam esconder suspeita, desconfiança. Será que a mentira não teria nem a chance de vir ao mundo? Seria irônico o gambito morrer antes mesmo de começar. Mas Hugo ofereceu em resposta o sorriso mais charmoso que conseguia conjurar e fez um gesto para que Pedro continuasse.
“É seu, não?”
Oh! Era tão, tão melhor. Ele nem precisaria soltar a mentira no mundo com os próprios lábios. Uma forma de expiação, por mais risível que fosse. Era apenas mais uma mentira, claro, mas uma a mais ou uma a menos, ou para alguém ou para si mesmo, já não faria mais diferença alguma aquela altura.
“É tão óbvio assim?” Hugo perguntou, vestindo uma feição falsa de modéstia que encaixava com perfeição em seu rosto.
“Não diria ‘óbvio’ mas é geralmente como as coisas funcionam nesse ramo.”
“Por favor, não pense que eu tentei enganar você, Pedro. Você sabe que eu jamais faria algo assim.”
Agora era Pedro que sorria, mesmo que o sorriso não tocasse seus olhos totalmente. “De forma alguma. Eu conheço você e a sua família bem demais para pensar o contrário. Diabos, eu praticamente vi você nascer!”
Pedro havia sido colega de universidade da mãe de Hugo, no que parecia a eles, quando falavam desses tempos idos de juventude, uma vida inteira atrás. Cada um tinha uma origem muito distinta: ela filha de estancieiro que nasceu e cresceu em meio ao pasto e os animais; ele filho de engenheiro que nunca havia deixado a cidade por mais do que poucas horas. Mas como ambos eram de classe alta e tiveram várias experiências similares que a riqueza geracional oferece, logo firmaram uma amizade que se estendeu através das décadas.
Muitos foram os natais que Pedro passou com a família de Hugo na estância, desde os tempos de universidade até a vida adulta, com sua esposa e filhos que Hugo tratava como primos. Pedro era uma figura presente em sua vida desde suas lembranças mais antigas. Inclusive, desde o seu primeiro dia de vida, porque sua mãe sempre repetia a mesma história de que ele havia prestado uma visita no mesmo dia que Hugo nasceu, sendo que ele havia acabado de retornar de uma viagem à Europa. Só não fora padrinho de seu batizado porque a litania de parentes próximos fez questão de impor a preferência que lhes era devida. Segundo quem, Hugo nunca descobriu.
Mentir para Pedro e usá-lo daquela forma vil deveria deixá-lo envergonhado e tomado de culpa.
Deveria, mas esses sentimentos simplesmente não estavam em lugar algum que Hugo pudesse sentir.
“Eu queria apenas que você analisasse com um olhar neutro, se é que me entende. Não levando em conta a nossa relação.”
“Claro que entendo. Mas não era preciso, de verdade. Eu daria a minha opinião e uma reposta com tanta autonomia intelectual quanto com qualquer outra pessoa em uma relação comercial.” Ele disse isso no mesmo tom macio que era de seu costume, moderado, parcimonioso, mas Hugo conseguia captar pequenas vibrações de reprovação e ainda notas de paternalismo. Nada de novo sob o sol. “Mas o que está feito já está feito, não é?” Hugo respondeu, mais uma vez com seu sorriso que desarmava a maioria das pessoas. Pedro definitivamente era uma delas. Pela primeira vez desde que começaram a conversar a alegria de seus lábios alcançou os olhos esfumaçados. “E sendo assim: o que você achou? Qual sua avaliação? Sobre o meu livro?”
E aí estava. A mentira estava livre e não havia como trazê-la de volta para o obscurantismo de sua alma. Poucas palavras, palavras quase inconsequentes, mas que tiveram o poder de devastar tantas vidas e de tantas maneiras que Hugo nunca poderia ter antecipado. A borboleta e o furacão, a metáfora obscena.
Pedro anuiu, batendo os dedos na mesa e mirando no prato cheio de farelos diante dele. Pegou o guardanapo com o logo do bistrô e começou a dobrá-lo cuidadosamente. “Acredito que o elemento mais importante para se destacar é que tem potencial. Muito potencial, na verdade.” Terminou de dobrar o guardanapo e o colocou com gentileza na mesa, pondo o prato com com a xícara em cima dele. Ajeitou-se na cadeira, cruzou as pernas e descansou as mãos nos joelhos. Então olhou para Hugo, de baixo para cima, como se olhasse por cima dos óculos que ele não usava mais depois de uma cirurgia. “Mas talvez não na forma que você espere.”
Aqui Hugo precisou se fazer de desentendido. Ele sentiu desde o começo daquilo tudo que essa questão se faria presente. “Oh? Como assim?”
“Eu vejo um potencial comercial muito grande. Com uma campanha de marketing adequada e bem-feita venderia como pão quente. Eu estou plenamente convencido disso. Tomei a liberdade de compartilhar os pontos principais, a ideia geral, com alguns companheiros do ramo, para ver a opinião profissional deles. Todos concordaram com a minha visão. Inclusive com boas chances de ser comprado para cinema ou televisão, levando em conta o jeito que a indústria está. O mercado de hoje olha com muita atração para esse tipo de conteúdo.”
Conteúdo. Deus, como Hugo odiava aquela palavra. A odiava com todas as suas forças. O trabalho que alguém deu sangue e lágrimas e pedaços da sua alma, independente da sua qualidade per se, não poderia nunca ser reduzido àquilo. Era uma ofensa, uma barbárie. Mas era uma luta que não poderia ser vencida. Por isso ele apenas balançou a cabeça afirmativamente, uma expressão de contemplação em seu rosto.
“Porém, sucesso de crítica me parece altamente improvável. E nisso as pessoas com quem falei também estão de acordo. Veja bem Hugo, não estou dizendo que é ruim ou abaixo da expectativa. Longe disso. Na verdade até consigo o imaginar conquistando status de cult, com pessoas devotas que dedicariam tempo e energia o defendendo com argumentos de verdade. Mas conquistar críticos? Não é impossível, mas improvável, e, honestamente, não valeria a pena algum tipo de esforço para alcançar esse tipo de público.”
Hugo suspirou. “É de fato um golpe na autoestima.” Não era, ele estava esperando por aquilo. “Mas eu acredito no material e estaria disposto a buscar por esse público que você mencionou. É algo que significa muito para mim, um pedaço da minha alma, e que eu penso que pode ressoar com outras pessoas.” E fazer muito dinheiro, rios de dinheiro, uma voz sussurrou na mente de Hugo, que teve que lutar para manter o pensamento dentro da cabeça.
“Muito bem, muito bem. Eu discuti isso com muita delonga com os meus sócios e com a equipe criativa e a de publicidade, e algumas partes não estavam totalmente convencidas que deveríamos investir nesse material. O seu material, eu já desconfiava, mas que achei sensato deixar de lado junto aos meus pares e subordinados.”
“E você estava?”
“Convencido?”
“Ou não convencido.”
“Eu debati muito comigo mesmo, mas no fim acabei me convencendo, sim. Eu fui advogado da sua causa junto aos demais.”
Hugo já estava com dores no rosto de tanto sorrir, mas agora era a hora crucial e ele precisava continuar no personagem e usar todas as suas armas. “E então?”
Pedro descruzou as pernas, inclinou-se para frente e mirou um olhar penetrante nos olhos de Hugo. O tipo de olhar que poderia ser capaz de atravessar as barreiras da mente e revirar os seus pensamentos mais secretos. Mas as paredes de Hugo eram grossas e sólidas e Roberto não viu nada que não devesse ver. “E então que ainda não está decidido. O máximo que consegui foi que o time jurídico fizesse o rascunho de uma proposta e de um contrato, mas os sócios ainda querem algumas garantias de ordem criativa.”
“Você tem perguntas, então.”
“Um punhado delas, sim.”
“Estou totalmente a sua disposição, Pedro. Até mesmo para me encontrar com os seus sócios se for o caso, uma reunião frente a frente para tirar qualquer dúvida que eles possam ter.”
“Não, não, não,” Pedro respondeu balançando a cabeça energeticamente. “Algo assim não é preciso. Fui eu quem trouxe o manuscrito, isso implica que a responsabilidade de deixar tudo o mais claro e objetivo possível é toda minha. Uma questão de honra e protocolo na profissão.”
“Claro, claro, me perdoe. Por favor continue.”
“A primeira questão que eu gostaria de trazer é sobre inspiração e originalidade. Você deve saber bem que esse tema, ou esse ‘formato’, já foi abordado antes.”
“Obviamente. E por nomes pesados. Saramago. Bulgákov. Companhia intimidadora. E eu entendo onde você quer chegar.”
“Entende?”
“Perfeitamente. O seu responsável pelos números deve ter sugerido que críticas negativas por comparação a essas obras podem prejudicar as vendas, não levando as contas a sua opinião — embasada — sobre vender bem mesmo que a crítica fale mal. E, além disso, eu imagino que um, ou mais, dos seus sócios, dê muito mais ouvidos ao responsável pelos números do que há sua experiência editorial.”
“É o que você pensa sobre isso?” Pedro perguntou, de um forma que deixou Hugo ligeiramente desconfortável.
“Preciso admitir que o pensamento me ocorreu enquanto escrevia,” Hugo mentiu novamente para tirar o desconforto do peito. Se aquilo fosse dar certo ele teria que mergulhar de cabeça. “Por mais que você escreva pensando como artista, valorizando as ideias, a substância intelectual, o lado financeiro sempre arranja uma maneira de se infiltrar no processo criativo.”
“Já ouvi isso de muitos escritores,” agora Pedro anuía com a mesma energia que há pouco negava, seu ar paternalista ainda mais evidente. Hugo sentia um impulso forte de ranger os dentes. “É um negócio, afinal de contas. Se você quer ser lido e reconhecido, precisa jogar pelas regras. Se quiser escrever um manifesto artístico sem nenhuma amarra mercadológica, mas destinada a irrelevância, a internet está aí para isso.”
“Justamente, justamente. E sobre essa questão toda, eu honestamente não me preocupo.”
“Ótimo ouvir isso. Mas em que bases?”
“Por causa do Paradoxo do Crítico.”
“Eu deveria saber o que é isso?” Pedro inquiriu outra vez com aquele olhar de óculos na ponta do nariz, a mais sutil nota de irritação em sua voz.
“Eu imagino que não,” Hugo riu, tentando controlar o ímpeto do tique em seu pescoço que denunciaria seu estado extremamente ansioso. “É uma proposição minha — se me permitir uma humilde aspiração filosófica — que defende que os críticos de arte, de todos os tipos, são, ao mesmo tempo, necessários e fundamentais para o ecossistema criativo e completamente irrelevantes, uma afetação egotística cheia de vendetas e ressentimento.”
Pedro refletiu sobre aquilo por algum tempo. “Palavras fortes. E que não seriam muito bem recebidas, sendo sincero. É o tipo de discurso que poderia ser usado contra você mesmo, dizendo que as vendetas e o ressentimento são seus.”
“É um risco que eu estou sempre disposto a correr. Mas enfim, o que eu quero dizer é que não importa o que os críticos vão dizer. Eu posso me importar, como pessoa criativa que quer sempre aprimorar seu trabalho, mas o público médio nem mesmo sabe o que é uma crítica literária. Por quê você acha que Dan Brown faz tanto sucesso mesmo sendo massacrado pelos críticos toda vez que ele despeja um livro novo no mundo? Não que eu ache que consiga os mesmos números, muito longe disso, mas tenho certeza de que se alcançarmos esse tipo de público podemos alcançar muito sucesso e não depender do que críticos pensam.”
“Você tem ambição,” Pedro disse, de uma maneira que deixou Hugo sem reação imediata. O paternalismo desapareceu, mas também não havia admiração naquelas palavras secas e precisas, era algo totalmente diferente e aquilo fez todo o tipo de alarme tocar na mente de Hugo.
“E isso não é algo bom?” Ele tentou quebrar o gelo, num tom leve mas não tão amável como havia sido até então, de certa forma tentando imitar a súbita mudança de trejeito de seu interlocutor.
Pedro suspirou e mudou sua posição, colocando as pernas cruzadas no lado da cadeira onde ficava a rua e apoiando o cotovelo na mesa, a mão no queixo. “Ambição não é inerentemente ruim. Mas depois de mais vinte e cinco anos nesse ramo é impossível não se tornar um bocado cínico, Hugo. E com esse cinismo vem o olhar claro, a mente limpa, que consegue ver os acontecimentos como eles são. E ambição, quase sempre, leva a decisões ruins, mal pensadas, apressadas. E eu não quero isso para você. Fico feliz em ver o seu entusiasmo e a vontade que você tem de fazer o seu romance se tornar realidade, genuinamente, mas me preocupo que você se afobe no processo.”
Hugo sentiu como se um raio tivesse cruzado seu corpo, um raio gelado que levantou cada fio de cabelo, enrugado sua pele e roubado até a última molécula de oxigênio de seu sangue. Naquele momento ele teve certeza de que Pedro podia ver através de suas mentiras, que ele estava medindo e pesando os prós e contras de apostar naquela farsa, se valia a pena correr o risco. Um negócio, apenas um negócio. Números em uma planilha. Dividendos. Era a isso que se resumia a venda da própria dignidade e do vilipêndio de uma memória?
Desde o dia em que viu a morte nos olhos Hugo sabia que estava andando em uma corda bamba esticada sobre um abismo. Mas até agora a corda não havia balançado tanto, não havia ameaçado o jogar na escuridão com tanta veemência. Hugo estava à beira do colapso.
*Ora, mas pare de ser um frouxo, seu moleque imbecil! *Gritou a voz gananciosa na mente dele. Agora você resolve ter uma consciência? Quando está tão perto? Com a liberdade batendo a sua porta e finalmente podendo deixar o passado para trás? Não ouse!
“Então seja meu guia,” Hugo disse, levando sua mão através da mesa para apertar a de Pedro. “Meu mentor. Eu confiaria minha vida a você.”
Por um momento ele se pegou pensando que estava fazendo um papel ridículo, exageradamente dramático, um pastelão. Mas a breve cena pareceu ter satisfeito Pedro, que colocou sua outra mão sobre a de Hugo. “Isso eu posso prometer, garoto. Pode confiar em mim.”
“Obrigado, obrigado do fundo do meu coração…”
“Mas calma que ainda não estamos prontos,” Pedro recolheu sua mão e reassumiu sua apostura de antes. “Você já deixou claro como encara o lado financeiro do negócio. Agora eu quero ouvir de você quais são as suas intenções artísticas com a obra.”
“Para fins de marketing?” Hugo indagou, confiança recuperada.
“Em parte, sim, mas isso ainda é um processo para mais tarde, se o acordo sair mesmo. Mas eu preciso ouvir isso de você para convencer outra parte interessada, a oposta da qual falávamos antes: a que se importa mais com valores artísticos do que com números.”
“Vejo que você precisa fazer malabarismos para lidar com todas essas partes. Não é cansativo?”
“Exaustivo! E definitivamente não o que meus pais queriam para mim. Mas no mesmo instante que o bichinho da literatura me picou esse mundo se tornou irresistível para mim. E faz valer a pena ter que se desdobrar o tempo inteiro para entregar o melhor produto possível.”
“E você nunca pensou em escrever algo você mesmo?”
“Não conseguiria nem que a minha vida dependesse disso. Editoriamento é uma arte em si mesma, e isso me satisfaz. Mas vamos lá, você está fugindo do assunto.”
“Eu sei, eu sei. Falar sobre sua obra é quase como falar sobre si mesmo, o que é sempre difícil. Você não acha?”
Pedro o acusou de continuar fugindo do assunto, mas dessa vez com o olhar.
“Pois que seja. Mencionei mais cedo Saramago e Bulgákov, gostaria de começar por eles. As duas obras em questão são diametralmente opostas, tendo em comum apenas o que tem em comum com a minha história: a reinvenção do Evangelho.”
“Com o seu background, muito compreensível.”
“Exatamente. Saramago é profundamente niilista, fazendo uma denúncia visceral dos abusos da religião organizada que proclama fé de um Deus inexistente, seu próprio ateísmo uma peça chave nessa paisagem narrativa. Por outro lado, Bulgákov criou um cenário mais próximo do romance histórico com o livro-dentro-do-livro sobre Pôncio Pilates — à parte do proto realismo mágico e sátira social do restante da história em Moscou. Tendo essas duas visões tão distintas sobre um tema similar, senti o impulso de buscar uma visão própria que combinasse a essência das outras duas. Certo, isso abre o espaço para que se diga que é apenas uma colagem sem identidade, mas eu tenho certeza que essa minha visão é original o suficiente para caminhas com as próprias pernas.”
Cada frase daquele discurso era uma mentira maior que a anterior. Hugo havia de fato lido os romances de Saramago e Bulgákov, anos antes da farsa, mas ele não tinha nenhuma convicção do que estava falando, tanto sobre eles como quanto ao ‘seu’ romance. Durante dias ele leu análises superficiais e buscou em sua memória os fragmentos que lembrava daqueles livros, ensaiou o que parecia ser a melhor versão de um pitch para vender o seu produto, usando as técnicas que havia aprendido em uma breve passagem por um grupo de teatro no ensino médio.
“Eu quis pintar um Cristo que fosse em partes iguais divino e humano. Uma figura cercada de misticismo, de acontecimentos surreais, de fraquezas da carne, com elementos de mistério, algo de conspiratório, uma parte que esteja escondida nos detalhes do todo que pegue o leitor de surpresa no desfecho. Meu objetivo era alcançar o que as grandes histórias conseguem: tocar pessoas diferentes, em lugares diferentes, em qualquer tempo. O meu Cristo é um homem atemporal, que poderia ser qualquer homem que você conhece no seu cotidiano, com falhas e fraquezas e conflituoso, mas com capacidades sobrenaturais e uma sabedoria que traz humildade até aos mais arrogantes e presunçosos.”
“Ótimo,” Pedro respondeu depois de ouvir atentamente, imóvel em sua cadeira, movendo a cabeça discretamente quando algum ponto parecia ser do seu agrado. “Mas preciso dizer, essa última parte sobre a sabedoria me soa como dizer que um personagem do seu livro é um grande poeta. Se você não for um grande poeta, muito dificilmente vai convencer o leitor que o seu personagem é.”
Aquela observação pegou Hugo desprevenido. Ele havia passado muitas horas analisando possíveis cenários que poderiam surgir naquela reunião, mas o que Pedro disse não passara por sua cabeça em nenhum momento. Então era hora de improvisar.
Sem pestanejar, ele disse, “você falou do meu background há pouco. Não levei aqueles estudos até o fim, verdade seja dita, mas penso que os aprendizados que tive naqueles anos podem me emprestar o que é preciso para mimetizar o que se passe por sabedoria. Quem sabe eu consiga convencer leitores o suficiente.” Ele disse aquelas últimas palavras no mesmo tom despreocupado que usara até então, mas haviam nelas uma certa dose de veneno que Hugo não resistiu em incluir. E dessa mesma forma continuou, “mas claro que estou disposto a ouvir o que você diga. Eu realmente quero que você seja meu mentor.”
“Eu não tenho muito o que dizer sobre isso,” Pedro falou, dando de ombros. Ele fez sinal para um garçom e pediu uma garrafa de água mineral. Depois seguiu, “Apenas que o meu feeling sobre sua proposta é de que você se esforçou muito…”
Você não sabe o quanto, e não da forma que você imagina.
O garçom voltou com a garrafa e a um copo, que ele abriu e serviu, depois se retirou. “…e normalmente quem se dedica da forma como você se dedicou, alcança o sucesso que almeja. É promissor, motivo o suficiente para se entusiasmar. Estamos quase lá Hugo, quase lá. Mas tenho mais uma pergunta: você tem o que é preciso?”
Hugo tremeu. Novamente ele se viu encarado por aquele olhar penetrante e invasivo de Pedro, dizendo de todas as formas, menos com palavras, que ele sabe da mentira e que está disposto a entrar na pantomima. Mas se souber mesmo, Hugo pensou, boca seca e mãos molhadas, ele que fale abertamente.
“Não sei se entendo o que você quer dizer.”
“Você tem ambição. A vontade e a disposição de aprender.” Pedro tomou um longo gole da água com gás, esfregou as mãos e deu duas bates secas na mesa com os nós dos dedos. “Mas só isso não é o suficiente. Para conseguir o sucesso que você quer é preciso ter culhão e a pele grossa. Bem grossa. É aquela coisa, chegar lá não é o mais difícil, difícil mesmo é se manter no topo. E quando se está no topo, muita, mas muita gente mesmo vai tentar te derrubar. Por todos os lados, vindo de quem você já sabe que te odeia e até mesmo quem você acha que está do seu lado. É uma barra pesada de encarar e eu já vi muitos autores talentosíssimos sucumbindo a essa pressão. Ainda mais sendo jovem, como você é, Hugo. Então eu pergunto de novo: você tem o que é preciso?”
Hugo sentiu um impulso quase incontrolável de gargalhar. Era perfeito, simplesmente perfeito. Por um instante, várias cenas da sua vida foram projetadas na sua rotina, tantas coisas pelas quais ele foi obrigado a passar para sobreviver, para ser quem ele realmente era, para ser livre. Agora um sorriso genuíno iluminava seu rosto e pela primeira vez naquela conversa ele não precisou mentir. “Eu tenho. Confie em mim, eu tenho.”
Pedro ficou em silêncio por quase um minuto inteiro, de olhos fechados e batendo os dedos na mesa. Por fim ele respirou fundo, abriu os olhos e disse, “está certo então,” ele ofereceu sua mão para Hugo através da mesa, “você é o mais novo autor da nossa editora. Parabéns Hugo.”
Hugo segurou a mão que lhe era oferecida com as suas e sacudiu com entusiasmo. “O prazer é todo meu Pedro, todo meu mesmo.”
“Saindo daqui vou direto para o escritório conversar com os sócios e dispor as garantias que eles pediram. Tudo o que você me falou é consistente o bastante e não há motivo para pensar que eles não fiquem plenamente convencidos agora. Amanhã cedo você passa lá e lê com calma os rascunhos da proposta e do contrato, sinta-se à vontade para fazer perguntas e oferecer ajustes que considere necessários. O time jurídico estará a sua disposição o tempo todo. Mas em todo caso vou pedir para que deixem uma versão oficial pronta para o caso de você concordar com tudo e quiser assinar logo.”
“Perfeito! Primeiro horário amanhã cedo eu estou lá. Ansioso para conhecer a equipe e começar a trabalhar com eles. Há de ser uma parceira de muitos frutos, pode ter certeza.”
“Oh, você vai amar o time criativo. Um bando de garotos iguais a você, mais um punhado de veteranos que já fumavam muita maconha antes mesmo dos outros nascerem. Tédio você não vai passar, acredite em mim.”
“Agora estou mais ansioso ainda,” Hugo riu, sentindo-se invencível.
“Mas enfim, o que os seus pais pensam disso tudo? Eles já leram?”
Cedo ou tarde aquela pergunta chegaria, mas Hugo estava preparado para ela. Agora seu sorriso mostrava alguma tristeza, cuidadosamente fabricada. “Acho que você não falou com a minha mãe nos últimos tempos, não é?”
“Para ser bem sincero, não falei mesmo. Andei terrivelmente ocupado nos últimos anos e fiquei um pouco negligente com a nossa amizade. Estou devendo uma visita há tempos.” Pedro bebeu o resto da água e encarou Hugo com as sobrancelhas arqueadas, sua testa encrespada formando meia dúzia de vales em sua pele levemente manchada. “Aconteceu alguma coisa?”
“Bom, você sabe que a minha relação com eles sempre foi… conturbada, para dizer o mínimo. Não me leve a mal, mas não quero entrar em detalhes e motivos. Estou sem falar com eles tem algum tempo já.”
Na verdade já fazia muitos anos. Com certeza Pedro havia conversado com a mãe de Hugo em algum momento nesse meio tempo. Ele não tinha como saber o que sua mãe havia dito ao amigo; se apenas contornara as perguntas sobre ou filho ou se simplesmente mentiu. Mas no fundo não importava. Era até mesmo melhor para as intenções de Hugo.
“Ora, me dói ouvir isso. E sim, eu sempre soube que as coisas não era fáceis entre vocês. Mas nunca imaginaria que pudesse chegar a esse ponto. Sinto muito em saber disso, espero que possam fazer as pazes logo.” Pedro parecia realmente consternado, ou ao menos era bom em disfarçar indiferença. Seguiu, sugerindo, “talvez o lançamento do livro possa ser uma boa desculpa para isso.”
“Ah Pedro, é um assunto tão sensível! E eu tenho um pedido para fazer sobre ele.”
“Claro, se estiver dentro do meu alcance.”
“Eu peço que você não comente sobre o livro com a minha mãe. Cedo ou tarde ela e o meu pai vão ficar sabendo, é inevitável, mas eu gostaria de que esse momento fosse adiado o máximo possível. Você me promete que não vai falar para ela?”
“Você está pedindo que eu minta para uma das minhas amigas mais antigas.”
“Não diga isso Pedro, por favor! Eu nunca pediria por uma coisa dessas. Apenas que você não mencione nossa parceria até que ela acabe descobrindo mais tarde. Omitir, não mentir.”
Pedro suspirou, parecendo subitamente exausto. “O pastor que conduziu o meu ensino confirmatório costumava nos dizer que omissão é o pior dos pecados.”
“Quando a verdade chegar a ela, você pode colocar a culpa em mim,” Hugo ofereceu, uma pitada de pânico escapando em sua voz.
“Isso não é muito reconfortante. Não mudaria o fato de que eu esconder algo tão importante da minha amiga querida seria uma forma de traição.” Ele ficou quieto por alguns momentos e suspirou outra vez. Hugo imaginou que os números que o livro traria para a editora estavam se mostrando tentadoramente maiores do que qualquer fidelidade que ele tivesse em relação a amizade com sua mãe. Bom. Muito bom. “Mas está bem. Eu prometo.”
“Obrigado meu amigo, obrigado mesmo. Eu me acerto com ela quando a hora chegar.”
Pedro conferiu as horas em seu relógio e disse, “foi uma reunião muito produtiva, mas está ficando tarde e preciso voltar para o escritório. Muito obrigado por seu tempo e por sua honestidade Hugo, eu aprecio muito isso, e espero que nossa parceria seja extremamente proveitosa. Nos encontramos amanhã na editora, tudo bem?”
“Perfeito! Nos vemos lá logo cedo.”
Hugo se levantou e foi de encontro a Pedro, abriu os braços e o envolveu em um abraço apertado. Seu novo mentor retribuía com batidas carinhosas em suas costas.
“Até lá então garoto. Se cuide.”
Pedro saiu do enlace de Hugo, pegou a carteira e colocou uma nota de cem reais na mesa, depois recolheu sua maleta e saiu caminhando calçada acima. Hugo sentou na cadeira e observou o outro homem se distanciando até que desaparecesse na virada de uma esquina. O garçom veio limpar a mesa e pegar o dinheiro, enquanto Hugo continuou sentado, observando com cuidado os detalhes daquele esplendoroso dia de primavera. O sol languido banhava a rua coberta de folhas secas e amareladas com uma luz diáfana, se espalhando pelos canteiros de flores e os gramados do parque que ficava do outro lado da avenida. A brisa que soprava era fria, mas agradável. O ar estava cheio de farfalhares de folhas e pelo canto dos pássaros, além dos sons normais da cidade e os perfumes das pessoas que passavam pelas mesas do bistrô.
Era bom estar vivo.
Hugo buscaria por aquela memória muitas vezes nos anos seguintes, tentando recuperar o sentimento de liberdade. Mas ele nunca conseguiria.
Quando a sombra dos prédios se esticou pela avenida e o vento ficou mais forte e mais frio ele se levantou, vestiu sua jaqueta e saiu andando sem pressa, respirando o ar cheio de sons e perfumes e vendo os dramas e comédias da cidade se desenrolando diante dos seus olhos.
Pouco antes do crepúsculo cair Hugo chegou ao seu destino. Ele cumprimentou o porteiro do prédio e pegou o elevador para o nono andar. Caminhou até o fim do corredor até alcançar o apartamento 99 e bateu na porta. Quando a porta se abriu ele entrou rapidamente e beijou a Marlene, a mulher vinte anos mais velha que ele com quem estava morando nas últimas semanas, com desejo avassalador. Ela estava nua embaixo do roupão que vestia e Hugo logo colocou uma mão entre as pernas dela, a fazendo gemer e ficar molhada. Ele chutou a porta, a fechando, e levou cecília para quarto enquanto tinha um dos seios dela no boca e continua com a mãos entre as suas pernas.
Sim, era muito bom estar vivo.