Ensaios: Meditações Metafísicas - René Descartes
Meditação Primeira - Das coisas que se podem colocar em dúvida
Pelo próprio título, é de se perceber que Descartes deseja formular sobre o que ele vai ou não colocar em dúvida durante o restante de suas reflexões nas outras meditações. Assim, nos primeiros parágrafos, busca primeiro compreender seu próprio contexto e limitações para seguir com os limites de seus conhecimentos e então chegar aos seus fundamentos. Ou seja, de onde para ele vinham as mais puras verdades de sua vida. Ele atribui aos sentidos do corpo (olfato, visão, tato, paladar e audição) como essas fontes primárias e comenta que elas podem, por vezes, serem enganadas por diversas razões e não podem, por si só, fundamentar nenhuma verdade. E, reforçando a sua ideia de que a verdade deve ser fundamentada em algo extremamente sólido, ele deixa clara a sua visão de que, mesmo os loucos, por mais obscuros que possam estar, podem ter alguma razão. E se eles não estiverem loucos e nada disso realmente existir? Esse é o argumento dele.
Seguindo a ideia de colocar tudo em dúvida, também faz-se necessário, de alguma forma, ter certeza de que tudo não passa de um sonho, que, por mais realista que seja, deve ser considerado como uma não verdade, e ele faz questão de ressaltar que não se encontra nesse estado. Com isso, ele define a natureza corpórea em geral e sua extensão. Ou seja, no meu entendimento, ele passa a delimitar um mundo físico-material e que, independente do estado de sonho ou não, existem ciências deste mundo que explicam seus fundamentos, visto que elas estão dentro desse mesmo mundo; elas acabam por conseguir descrever as verdades sobre ele. Mas é importante ressaltar que mesmo essas ciências podem ser colocadas em dúvida.
Para aumentar o espectro de suas dúvidas, ele lembra que os próprios conceitos mais simples podem ser enganosos e propõe-se a sempre buscar uma verificação sobre isso. Para isso, ele utiliza seu conceito de Deus e, logo inicialmente, coloca esse Deus, que ele considera soberanamente bom, em dúvida quanto a essa bondade. Vai para além disso, utilizando-o como ferramenta de dúvida, questiona a própria possibilidade de qualquer fundamento seguro. Dessa forma, ele conclui que todas as opiniões, sem exceção, devem ser suspensas e retiradas de um lugar ao qual são concedidos créditos, ou seja, que têm uma explicação, mesmo as questões consideradas falsas para quem as tenha verificado anteriormente.
Por fim, para sustentar o restante de suas reflexões, ele propõe um ser supremo, como um Deus, mas que seja maligno, que apenas emprega todo seu empenho em enganar, para que nenhuma proposição seja verdadeiramente verdadeira. Essa é a forma com que Descartes faz uma completa suspensão de todas as suas convicções prévias.