Ensaios: Meditações Metafísicas - René Descartes
Meditação Terceira - De Deus; Que Ele Existe
Meditação Terceira – Bom, coloquei tudo em dúvida e me persuadi de que nada existe. Apesar disso, consegui definir que eu existo e, mais, consegui provar que existo porque penso. Por fim, sou uma coisa que penso, portanto um espírito; porém, nada além de mim existe. Pois o que posso definir que existe para além de mim, se tudo que pode existir fora de mim mesmo pode ser falso? Certamente posso conceber ideias por mim mesmo, mas isso não significa que essas ideias sejam verdadeiras, mesmo que eu não consiga definir o que, de fato, seja verdadeiro ou falso. Dentre todas essas ideias, algumas podem vir de mim e outras, de fora de mim, e não tenho como diferenciá-las.
Neste exercício, preciso fazer inicialmente uma distinção clara e objetiva das ideias que concebo pelos meus sentidos: o céu, as estrelas, o mar, e todas as outras que não me parecem ser originadas nos meus sentidos, mas sim no meu próprio espírito, como a matemática, onde dois mais três é cinco, concepções completamente abstratas. É interessante observar que, de todas as concepções que consigo pensar, existe uma em especial que não é possível enquadrar em nenhuma das concepções anteriores, mas isso não a torna menos distinta e objetiva do que as outras: a ideia de um Deus soberano, eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e criador universal de todas as coisas que estão fora dele. Agora que consigo entender de forma clara e distinta minhas concepções, isso não as torna verdadeiras.
Para verificar se essas concepções são mesmo verdadeiras, vou pensar usando o princípio da causa e efeito. Ou seja, não existe efeito sem causa; portanto, a causa deve conter tanta realidade quanto o seu efeito. Disso posso concluir que o nada não pode produzir alguma coisa, e também que aquilo que seja mais perfeito, que contém mais realidade em si, não pode ser produzido por algo que seja menos perfeito. Por exemplo, uma pedra que ainda não existe não pode começar a existir, exceto por uma causa que contenha diretamente ou de forma superior tudo que há na pedra. Ou ainda, o calor em uma panela não pode surgir do nada, mas apenas de algo que seja ao menos tão quente quanto (ou que contenha eminentemente a capacidade de produzir calor, como o fogo).
Ainda que uma ideia seja plenamente objetiva, não posso deixar de levar em conta que ela surgiu no meu espírito e isso, por si só, deveria me fazer colocar em dúvida essa ideia. Porém, também devo considerar que, se uma ideia apareceu em meu espírito, objetivamente, sua causa não pode ser menos objetiva. Além disso, caso eu veja que a realidade objetiva não está em mim de forma direta ou eminente, posso concluir que não existo sozinho no mundo, mas que algo existe e que é causa dessa ideia.
Depois de muito pensar, consegui encontrar algumas ideias que me parecem ser distintas, claras e objetivas. A primeira delas é a ideia que representa a mim mesmo, e não há nenhuma dificuldade em sua compreensão. Há outra ideia que representa um Deus; outras, as coisas corporais e inanimadas; e, por fim, outras que representam homens semelhantes a mim. As ideias que representam outros homens ou animais, concebo que facilmente podem ser formadas pela mistura e composição de outras ideias que tenho das coisas corporais e de Deus. Já com relação às coisas corporais, não vejo nada de tão grande que não possa ter surgido de mim mesmo. Pois, mesmo que eu aplique um exame mais profundo em suas análises, a complexidade e o grau de indeterminação a que chegaria não ajudariam em nada a esclarecer suas veracidades. Fora que, como as coisas corporais são apenas maneiras de apresentação do próprio mundo, e eu sou, tudo que existe neste mundo pode, no fim, apenas estar contido dentro de mim de maneira eminente.
Agora me resta a ideia de Deus. Será que essa ideia não partiu de mim mesmo? E por Deus quero dizer a ideia de algo infinito, eterno, imutável, independente, onisciente, onipresente, que existe por si mesmo e pelo qual todas as outras coisas (se é verdade que existem outras coisas) foram criadas e produzidas. Para me certificar de que essa ideia não veio tão somente de mim mesmo, preciso examiná-la com muito cuidado.
Ao avaliar cuidadosamente cada detalhe para me certificar se essa ideia é verdadeira ou não, vou bem ao fundo. A princípio, considero as vantagens de um ser assim tão grandes e tão eminentes que é difícil acreditar que eu mesmo as conceberia. Por consequência, de efeito teria-se por causa que Deus existe. Pois, ainda que a ideia de existir esteja em mim, eu, que sou um ser finito, não poderia ter em mim a ideia de um ser infinito. Mas não posso me satisfazer apenas com uma proposição tão simples, sem considerar diversos outros aspectos. O próprio fato de eu conseguir saber que me faltam características, de que sou imperfeito, também pode me levar a essa conclusão; mas pensar que as minhas carências mostrariam que essa ideia é verdadeira não a tornaria mais verdadeira. Por isso, devo continuar investigando.
Observo os nuances mais sutis: será que essa ideia de Deus é materialmente falsa? De certo, não, pois a tenho muito clara e distinta. Veja só: ainda que talvez se possa fingir que um tal ser não existe, não se pode fingir, entretanto, que sua ideia não represente algo real. Essa mesma ideia, que meu espírito concebe muito clara e distinta, está inteiramente encerrada nessa ideia.
Porém, é possível que eu seja algo mais do que imagino ser e que tudo que atribuo de perfeição a Deus esteja, na verdade, de algum modo em mim em potência. Mas a ideia de Deus é tal que, qualquer que seja o atributo, não está em potência, mas sim em seu máximo.
Não se pode também excluir que muitas causas juntas tenham ocorrido para me produzir e que as ideias de perfeição que atribuo a Deus, com sorte, estejam espalhadas pelo Universo. É certo que a ideia de unidade de todas as perfeições, inseparavelmente, de maneira tão simples que fazem esse Deus existir em si, não podem ter sido colocadas em mim por nenhuma outra causa da qual eu não haja recebido também as ideias das outras perfeições. Por isso, essa mesma ideia tem de ter partido de alguma outra ideia que conhecesse todas as outras de alguma maneira.
Enfim, além desses argumentos, Descartes utiliza uma lógica bastante fundamentada para apontar ainda mais observações sobre a veracidade de sua proposição. Daí o fato de ele afirmar, depois de todas as suas demonstrações, mais alongadas do que as fiz, que, de fato, Deus existe. Porém, nada disso implica que as outras coisas existem, nem que são verdadeiras; e nisso consiste o continuar de suas meditações.